terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Golungo Alto, Kwanza Norte

Umas crianças vêem a Mia de costas com um chapéu enfiado na cabeça até ao pescoço e vão curiosas atrás dela. Às tantas, ela vira-se de frente e eles, surpreendidos, desatam à gargalhada: «Ai! Ai! Pensávamos que era quilombo» (nome angolano dado aos albinos). 
Numa outra povoação, a caminho da caverna da 'Pedra Furada', encontra as amigas da foto e ficam a brincar até que aparece um miúdo mais pequeno que olha para ela e desata num pranto, provocando o riso nas outras crianças. «Ele nunca tinha visto uma criança branca, só adultos», justificou o familiar mais velho. 

Mia, a fantasminha, a assombrar os kandengues no interior de Angola.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Bairro do Cruzeiro

"como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas"
Viriato da Cruz




terça-feira, 25 de novembro de 2014

Temas fracturantes

Saio de casa e os vizinhos na rua discutem Deus e a criação do mundo. «Como é que eu não vou querer saber de onde vem Deus?», pergunta um. «Para quê precisas de saber? É só saber que existe e pronto», contrapõe outro. «Mas se criou os mares e os rios…eu vou querer saber de onde veio alguém assim...», argumenta o primeiro.
Chego ao trabalho, vou para a copa, e nem tenho tempo de meter a cápsula na máquina já as senhoras da limpeza me perguntam de rajada: «Por que é que as malianas tapam-se com panos pretos? Estão de luto?». Segue-se o debate sobre o uso do véu, tradição, religião, mulheres e temperaturas acima dos 30 graus. «Usar aquilo aqui em Angola? Não, nem pensar…», indigna-se uma. «É tradição delas», releva uma outra. As minhas manhãs são demasiado intelectuais e cheias de temas fracturantes para quem ainda nem café bebeu...

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Derby

Entretanto em Luanda, tal como em Lisboa, sobre estas coisas e loisas da política e da justiça também há bitaites e prognósticos para todos os gostos: 

- Joana, o Sócrates é do Benfica?
- Acho que sim. Porquê?
- Xéee, vai complicar: o juiz dizem que é do Sporting (risos).

Quem resiste a um bom derby?

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Fazer nascer uma nação

O escritor Manuel Rui chegou a Portugal já a delegação da Casa dos Estudantes do Império de Coimbra tinha sido encerrada pela PIDE, mas a semente do movimento nacionalista crescia sem controlo entre os estudantes vindos das colónias.
«Saímos daqui sem saber o que era Angola e a história dos grandes lutadores contra a ocupação. Na escola estudámos a História de Portugal, decorávamos o hino nacional, conhecíamos as cores da bandeira nacional portuguesa, e era isto que nós sabíamos», relembra o escritor Manuel Rui sobre os tempos em que saiu de Nova Lisboa, hoje Huambo, para estudar Direito na Metrópole. Após a proclamação da independência, em 1975, viria a ser ele, aos 34 anos, o autor da letra do hino de Angola e Ministro da Informação do governo de transição do novo país. Continua aqui.


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Poesia como reacção

Arnaldo Santos é autor de dois livros editados pela Casa dos Estudantes do Império na década de 60, apesar de nunca ter estudado em Portugal. O escritor recorda os tempos em que nas férias levou mensagens de Lisboa para Paris, fazendo a ponte entre Amílcar Cabral e Mário Pinto de Andrade que urdiam as independências africanas. 
Em 1959 Arnaldo Santos trabalhava como funcionário público em Luanda, estava ligado ao Movimento dos Novos Intelectuais de Angola e fazia parte do grupo da revista Cultura, editada pela Sociedade Cultural. Resolve tirar uma licença de alguns meses e ir de férias para a Europa. A primeira paragem é em Lisboa. Vai com frequência à Casa dos Estudantes do Império (CEI) onde, entre partidas de pingue-pongue, reencontra amigos com quem fez o Liceu em Luanda e muitos outros nomes que acabaram por desempenhar um papel relevante na luta pela independência.
«A Casa estava cheia de pessoas progressistas, de esquerda, com ideias nacionalistas. Falavam de uma forma diferente, eram já revolucionários, e com uma visão do mundo diferente da minha porque eu era católico praticante», conta na sua casa em Luanda. Relembra nomes como Amílcar Cabral (político da Guiné Bissau e de Cabo Verde), Iko Carreira (futuro ministro da Defesa de Angola), Paulo Jorge (futuro ministro dos Negócios Exteriores de Angola), entre outros.
Continua aqui.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A importância de se chamar Ernesto

Um bilhetinho colocado numa árvore com um número de telefone levou-me até ao Ernesto. Fiquei a saber que, durante os anos em que estudava teatro no ensino médio, o Ernesto madrugava e fazia 22 quilómetros desde o Cacuaco até à biblioteca do Instituto Camões na Embaixada de Portugal, em Luanda, para consultar livros e manuais. Como não era o único, pensou em criar uma biblioteca comunitária perto de casa. Cada vez que participava numa peça de teatro o pagamento do bilhete era exigido em livros, também fez peditórios a Embaixadas, editoras, artistas, particulares,... Porque há sempre alguém que diz que sim e contribui, a biblioteca comunitária nasceu, primeiro debaixo de uma árvore e, depois, num contentor climatizado e com cybercafé. Hoje em dia tem 2.000 títulos e é frequentada por 60 pessoas diariamente, sendo que alguns vêm até da Província do Bengo. O espaço é pequeno e ele quer criar uma outra biblioteca no Cazenga e mais outra no Sambizanga, numa espécie de multiplicação de contentores-biblioteca pela Grande Luanda fora. Mas são precisos mais livros. Por isso, o Ernesto está a recebê-los até Domingo na Feira do Livro e do Disco, no CEFOJOR, ao pé da Rádio LAC, em Luanda, e depois disso também, claro. Quem quiser doar um livro é ir até lá.


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Acordar na cidade

Nas manhãs em que levo a minha filha à creche ela passa o pátio do prédio no seu ritual de distribuir 'coolis' (aparentemente é quando um punho fechado bate noutro punho fechado em sinal de 'tá-se bem') pelos seguranças e rapazes que lavam os carros na rua. Depois são dez minutos de gincana matinal. Para facilitar levo ao colo os doze quilos compactos e vou desviando-me das águas encardidas, saltando de pedra de cimento em tábua de madeira. 
Quando deixa de haver passeio ou porque está um candeeiro tombado ou porque está em obras, salto para a estrada onde os carros oscilam entre o ignorar-nos e o ceder-nos a passagem. Há poeira por todo o lado, fujo com o olhar para cima e só vejo arranha-céus espelhados e guindastes a quem não dão tréguas. Vamos cantando músicas que, imagino, já se cantavam no tempo em que era a minha avó quem ia à escola (e ainda há quem se espante com a longevidade dos Rolling Stones...). Luanda está impraticável ou posso ser só eu que estou muito cansada. "Ai ai ai minha machadinha...". 
No caminho um senhor mais velho costuma estar sempre à janela de um prédio cor-de-rosa à espera de ver a Mia. Cumprimentam-se e sorriem. Às vezes olho e ele não está, mas quando faço o caminho de regresso, já sozinha, ele aparece e diz-me que se distraiu com as horas e que pena que assim não a viu, e pergunta pelo marido, manda abraços e votos de bom dia. As zungueiras do bairro dizem-me para levar mamão e abacate que é bom para a caçula e um cliente habitual do café onde por vezes vou, pergunta-me como vai a bebé e como está a minha mãe em Portugal.
Costumo pensar como seria este começar de dia noutros pontos do globo. Imagino que há lugares onde podia ir com ela de bicicleta ou a empurrar um carrinho num sítio bonito, limpo, com verde. Gosto da imagem idílica que aparece na minha cabeça, mas pergunto-me se teríamos à mesma tanta proximidade e a companhia de pessoas desconhecidas. Enquanto isso, a estrada esventrada por chineses da construção mostra que, por debaixo do alcatrão que ainda há-de vir no fim da obra, a terra aqui é vermelha.

sábado, 9 de agosto de 2014

Geografias

A propósito da calamidade do Ébola a televisão portuguesa diz que também estão a ser tomadas medidas de encerramento de fronteiras na Zâmbia "vizinha" da Serra Leoa. De Freetown a Lusaka a 'vizinhança'. A olho no mapa é mais ou menos equivalente à que vai de Lisboa a Kabul. Ai 'a África', esse grande país...

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Empata-poesia

Anos e anos de literatura sobre África que relata a saída do avião e o primeiro contacto do europeu com o bafo de ar quente que imediatamente envolve, e a roupa que se cola ao corpo, e os cheiros característicos do continente-berço, e depois, na madrugada de ontem a descer as escadas na pista do 4 de Fevereiro só senti foi uma rabanada de vento frio para caraças. Eita Cacimbo de cortar os ossos e empata-poesia...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Okavango, património mundial

Tudo começa com as chuvas que caem no planalto central de Angola e fazem nascer um rio que quer correr para o mar como fazem todos os rios. Mas o Cubango nunca chega nem ao Atlântico, como o Kwanza, nem ao Índico, como o Zambezi, e acaba por morrer como Okavango no Kalahari do Botswana, alimentando a vida de um Deserto habitado por animais que estão a desaparecer de outros lugares da terra. Cubango/Okavango, o rio que nasce para morrer no deserto, dando-lhe a vida...
A UNESCO diz que o Delta do Okavango é património mundial, e diz tão bem.

(Moremi Game Reserve, Okavango Delta, 2012)













domingo, 25 de maio de 2014

Chicun cena

A malária já se sabe que é sempre uma possibilidade por estas bandas, entretanto veio a dengue, novo elemento desestabilizador, mas estes mosquitos mutantes filhos da mãe mosquito que os pariu encontram sempre maneira de se reinventarem. Então agora há em Luanda um surto novo de "catolotolo" e "chicungunha". Três dias de febres entre os 38,5 e os 39,5 e dores horríveis nas costas, mãos e pés, testes de dengue e malária negativos, nada conclusivo. Na clínica, mais de metade das pessoas com os mesmos sintomas que eu. "Isso é chicungunha. Repouso e ben-u-ron", dizem os enfermeiros. Mas que nome é este? "Chicungunha"? É suposto avisar a chefia que tenho de ficar em casa de repouso porque tenho "chicungunha". Alguém se ma acredita? Valha a Reuters para alguma credibilidade...E valha, ainda assim, o famigerado mosquito, (se tiver sido mesmo o mosquito-chikun e não outra maleita qualquer não identificada), por ter tido a decência de se ter metido com alguém do "seu tamanho" e só me ter picado a mim cá em casa... 

Mais chicun cena aqui.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Portuguesa pelo mundo

Portuguesa (afirmativo, e quase sempre com orgulho) e no mundo (sempre que possível), a semana passada falei para a rádio Antena 1 sobre os meus quase 5 anos (como se atreveram a passar assim?!) em Angola. Oiça quem conseguir que eu só aguento esta minha voz até aos primeiros 10 segundos.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O meu manifesto de 'elinguista'

As escadas vermelhas, o calor da noite, o gin na mão, o letreiro azul do BPC em frente, respirar fundo (quem vive no centro de Luanda sabe o quanto importante e raro é um sítio onde se possa, descontraidamente, respirar fundo). Foi no Elinga que, pela primeira vez, Junho de 2009, senti que podia ‘viver’ em Luanda. O Elinga e as suas tribos, ambiente mágico, música boa, pessoal misturado entre locais e estrangeiros. Pelo Elinga cometemos loucuras (‘loucuras’, está claro, nos parâmetros de dois ‘pulas’ novos na cidade). Nos primeiros tempos, e ainda sem transporte ou boleia, era obrigatório ir e regressar mesmo que fosse a pé. Chegámos, sozinhos, a fazer a Baixa e subir a Missão até ao Kinaxixi a pé às três da manhã...Mas o Elinga era o nosso bálsamo numa nova cidade onde andávamos à procura de um lugar longe dos bares da ilha com os quais a identificação era difícil e, ali, encontrámos. Um lugar representa aquilo de que gostam e o que são os seus vários frequentadores ou é o próprio lugar que cria uma comunidade? Não sei dizer, mas no Elinga conheci algumas das pessoas mais fixes da Banda, fiz alguns amigos e muitos conhecidos. O Elinga é tão único que deu lugar a um verbo: «Como é, hoje vamos ‘elingar’?». 
Em cinco anos as circunstâncias (pessoais e da cidade) mudaram, a música conheceu noites menos boas, o espaço encheu demasiado, tive uma filha, passei a ir ao Elinga esporadicamente: uma exposição, uma peça de teatro, uma entrevista ali marcada. Mas era sempre ‘o Elinga’… Depois intensificaram-se os rumores de que iria ser demolido para dar lugar a um «parque de estacionamento», «não, vai ser um centro comercial», «achas? é para construir um prédio de milhões», boatos, especulações, os mujimbos em que Luanda é pródiga. Acho que ainda ninguém sabe ao certo para que é. Também se diz que no último andar, o tal do novo prédio vai ter um terraço já reservado para o novo espaço do bar e teatro do Elinga. Sabe-se lá… 
Há um mês voltei para entrevistar o rapper MCK e assistir a um debate com os Buraka Som Sistema sobre Kuduro, na semana passada voltei para entrevistar uma actriz portuguesa que está a dar formação a actores do bairro do Sambizanga, que ficaram sem teatro, desaparecido na vertigem das demolições. O Elinga é eclético e generoso, abraça a arte e a cultura nas mais diversas formas, é terreno fértil para criatividade. «Temos uma apresentação aqui marcada para dia 17 de Abril, mas pode não acontecer porque o Elinga pode já não existir», disse a Sandra Barata Belo durante os ensaios da peça «E se amanhã o medo», texto de Ondjaki. Na verdade, e se amanhã o Elinga já não estiver de pé?! Está certo que as condições não são as melhores, o espaço (físico) está em muito mau estado, as madeiras estão podres, os ratos vagueiam por ali, muitos artistas (como o enorme António Ole) já deixaram os seus ateliês e rumaram para outros locais, não serve os seus intentos mas demolir é a melhor opção? Sinceramente, não sei, não percebo nada de construção, mas arquitectas como a Ângela Mingas e a Paula Nascimento têm lutado para mudar mentalidades e chamado a atenção para se preservar o centro histórico. São jovens valores angolanos, são competentes, têm obra feita, não são mais ouvidas, porquê?! 
Entristece-me o que se passa em Angola com a mania de replicar o pior que se faz nos países ditos do primeiro mundo e com a obsessão em se ser moderno, civilizado, ocidental, seja lá isso o que for. 
A Europa está decadente. O 'modelo' europeu e ocidental, de uma forma geral, falhou! Portugal, infelizmente, não é exemplo para quase nada (tirando o sistema nacional de saúde e o ensino público que, e é capaz de estar por dias, ainda são das poucas coisas dignas de orgulho e admiração) e, mesmo assim, por cá, insiste-se em destruir património arquitectónico e “afectivo” (como escrevia a Marta). E pôr por cima betão, construir edifícios modernos, espelhados, iguais a tantos outros, sem carisma, sem chama, sem história, como se fez hemisfério norte fora, eliminando aquilo que havia, passando com bulldozers por cima do Passado que, para o bem e para o mal, é o que vai deixando escrito a história dos povos. A demolição a qualquer momento do Elinga representa para mim algo maior na actualidade angolana. 
Esta obsessão por imitar e importar o que é feito 'lá fora' quando o que é feito 'lá fora' foi tão absurdamente mal feito, é algo que não entendo. Porque não pode Angola, tão jovem, tão no início como país novo, tão candidata a ponta de lança no ‘jogo’ de África como o mundo, encontrar o seu próprio caminho e criar o seu modelo original, inspirar-se no que de bom já se fez por aí, aprender com o que de mal se fez, e 'inventar', livre de amarras, uma forma nova e única de ser Nação?! Angola é independente, sim, mas para quando a emancipação?!














domingo, 30 de março de 2014

Titanic à angolana

Cemitério dos Navios, Dande


domingo, 23 de março de 2014

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O catorze

O Dia de São Valentim ou dos Namorados por estas bandas é "o catorze". Começa com votos de "feliz dia dos namorados" uma semana antes; há bancas montadas na rua a vender flores que murcham precocemente através dos 30 e muitos graus; peluches tatuados de I Love You; peças de roupa lingerie sexy. Depois, no próprio do dia, há homens que saem dessas bancas com três ramos de flores diferentes ou com quatro ursinhos felpudos ou com dois pares de conjuntos interiores (eu vi, eu vi, ninguém me contou...). Dizem que na semana que antecede o grande dia há mais polícia na rua a tentar facturar porque está "a chegar o catorze" e parece que da noite de hoje até amanhã os hospitais recebem enchentes entre dores de corno, puxões de cabelo e champanhe mal assimilado. 
Ama-se muito em Angola.