Nas manhãs em que levo a minha filha à creche ela passa o pátio do prédio no seu ritual de distribuir 'coolis' (aparentemente é quando um punho fechado bate noutro punho fechado em sinal de 'tá-se bem') pelos seguranças e rapazes que lavam os carros na rua. Depois são dez minutos de gincana matinal. Para facilitar levo ao colo os doze quilos compactos e vou desviando-me das águas encardidas, saltando de pedra de cimento em tábua de madeira.
Quando deixa de haver passeio ou porque está um candeeiro tombado ou porque está em obras, salto para a estrada onde os carros oscilam entre o ignorar-nos e o ceder-nos a passagem. Há poeira por todo o lado, fujo com o olhar para cima e só vejo arranha-céus espelhados e guindastes a quem não dão tréguas. Vamos cantando músicas que, imagino, já se cantavam no tempo em que era a minha avó quem ia à escola (e ainda há quem se espante com a longevidade dos Rolling Stones...). Luanda está impraticável ou posso ser só eu que estou muito cansada. "Ai ai ai minha machadinha...".
No caminho um senhor mais velho costuma estar sempre à janela de um prédio cor-de-rosa à espera de ver a Mia. Cumprimentam-se e sorriem. Às vezes olho e ele não está, mas quando faço o caminho de regresso, já sozinha, ele aparece e diz-me que se distraiu com as horas e que pena que assim não a viu, e pergunta pelo marido, manda abraços e votos de bom dia. As zungueiras do bairro dizem-me para levar mamão e abacate que é bom para a caçula e um cliente habitual do café onde por vezes vou, pergunta-me como vai a bebé e como está a minha mãe em Portugal.
Costumo pensar como seria este começar de dia noutros pontos do globo. Imagino que há lugares onde podia ir com ela de bicicleta ou a empurrar um carrinho num sítio bonito, limpo, com verde. Gosto da imagem idílica que aparece na minha cabeça, mas pergunto-me se teríamos à mesma tanta proximidade e a companhia de pessoas desconhecidas. Enquanto isso, a estrada esventrada por chineses da construção mostra que, por debaixo do alcatrão que ainda há-de vir no fim da obra, a terra aqui é vermelha.
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