Um bilhetinho colocado numa árvore com um número de telefone levou-me até ao Ernesto. Fiquei a saber que, durante os anos em que estudava teatro no ensino médio, o Ernesto madrugava e fazia 22 quilómetros desde o Cacuaco até à biblioteca do Instituto Camões na Embaixada de Portugal, em Luanda, para consultar livros e manuais. Como não era o único, pensou em criar uma biblioteca comunitária perto de casa. Cada vez que participava numa peça de teatro o pagamento do bilhete era exigido em livros, também fez peditórios a Embaixadas, editoras, artistas, particulares,... Porque há sempre alguém que diz que sim e contribui, a biblioteca comunitária nasceu, primeiro debaixo de uma árvore e, depois, num contentor climatizado e com cybercafé. Hoje em dia tem 2.000 títulos e é frequentada por 60 pessoas diariamente, sendo que alguns vêm até da Província do Bengo. O espaço é pequeno e ele quer criar uma outra biblioteca no Cazenga e mais outra no Sambizanga, numa espécie de multiplicação de contentores-biblioteca pela Grande Luanda fora. Mas são precisos mais livros. Por isso, o Ernesto está a recebê-los até Domingo na Feira do Livro e do Disco, no CEFOJOR, ao pé da Rádio LAC, em Luanda, e depois disso também, claro. Quem quiser doar um livro é ir até lá.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Acordar na cidade
Nas manhãs em que levo a minha filha à creche ela passa o pátio do prédio no seu ritual de distribuir 'coolis' (aparentemente é quando um punho fechado bate noutro punho fechado em sinal de 'tá-se bem') pelos seguranças e rapazes que lavam os carros na rua. Depois são dez minutos de gincana matinal. Para facilitar levo ao colo os doze quilos compactos e vou desviando-me das águas encardidas, saltando de pedra de cimento em tábua de madeira.
Quando deixa de haver passeio ou porque está um candeeiro tombado ou porque está em obras, salto para a estrada onde os carros oscilam entre o ignorar-nos e o ceder-nos a passagem. Há poeira por todo o lado, fujo com o olhar para cima e só vejo arranha-céus espelhados e guindastes a quem não dão tréguas. Vamos cantando músicas que, imagino, já se cantavam no tempo em que era a minha avó quem ia à escola (e ainda há quem se espante com a longevidade dos Rolling Stones...). Luanda está impraticável ou posso ser só eu que estou muito cansada. "Ai ai ai minha machadinha...".
No caminho um senhor mais velho costuma estar sempre à janela de um prédio cor-de-rosa à espera de ver a Mia. Cumprimentam-se e sorriem. Às vezes olho e ele não está, mas quando faço o caminho de regresso, já sozinha, ele aparece e diz-me que se distraiu com as horas e que pena que assim não a viu, e pergunta pelo marido, manda abraços e votos de bom dia. As zungueiras do bairro dizem-me para levar mamão e abacate que é bom para a caçula e um cliente habitual do café onde por vezes vou, pergunta-me como vai a bebé e como está a minha mãe em Portugal.
Costumo pensar como seria este começar de dia noutros pontos do globo. Imagino que há lugares onde podia ir com ela de bicicleta ou a empurrar um carrinho num sítio bonito, limpo, com verde. Gosto da imagem idílica que aparece na minha cabeça, mas pergunto-me se teríamos à mesma tanta proximidade e a companhia de pessoas desconhecidas. Enquanto isso, a estrada esventrada por chineses da construção mostra que, por debaixo do alcatrão que ainda há-de vir no fim da obra, a terra aqui é vermelha.
Quando deixa de haver passeio ou porque está um candeeiro tombado ou porque está em obras, salto para a estrada onde os carros oscilam entre o ignorar-nos e o ceder-nos a passagem. Há poeira por todo o lado, fujo com o olhar para cima e só vejo arranha-céus espelhados e guindastes a quem não dão tréguas. Vamos cantando músicas que, imagino, já se cantavam no tempo em que era a minha avó quem ia à escola (e ainda há quem se espante com a longevidade dos Rolling Stones...). Luanda está impraticável ou posso ser só eu que estou muito cansada. "Ai ai ai minha machadinha...".
No caminho um senhor mais velho costuma estar sempre à janela de um prédio cor-de-rosa à espera de ver a Mia. Cumprimentam-se e sorriem. Às vezes olho e ele não está, mas quando faço o caminho de regresso, já sozinha, ele aparece e diz-me que se distraiu com as horas e que pena que assim não a viu, e pergunta pelo marido, manda abraços e votos de bom dia. As zungueiras do bairro dizem-me para levar mamão e abacate que é bom para a caçula e um cliente habitual do café onde por vezes vou, pergunta-me como vai a bebé e como está a minha mãe em Portugal.
Costumo pensar como seria este começar de dia noutros pontos do globo. Imagino que há lugares onde podia ir com ela de bicicleta ou a empurrar um carrinho num sítio bonito, limpo, com verde. Gosto da imagem idílica que aparece na minha cabeça, mas pergunto-me se teríamos à mesma tanta proximidade e a companhia de pessoas desconhecidas. Enquanto isso, a estrada esventrada por chineses da construção mostra que, por debaixo do alcatrão que ainda há-de vir no fim da obra, a terra aqui é vermelha.
sábado, 9 de agosto de 2014
Geografias
A propósito da calamidade do Ébola a televisão portuguesa diz que também estão a ser tomadas medidas de encerramento de fronteiras na Zâmbia "vizinha" da Serra Leoa. De Freetown a Lusaka a 'vizinhança'. A olho no mapa é mais ou menos equivalente à que vai de Lisboa a Kabul. Ai 'a África', esse grande país...
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Empata-poesia
Anos e anos de literatura sobre África que relata a saída do avião e o primeiro contacto do europeu com o bafo de ar quente que imediatamente envolve, e a roupa que se cola ao corpo, e os cheiros característicos do continente-berço, e depois, na madrugada de ontem a descer as escadas na pista do 4 de Fevereiro só senti foi uma rabanada de vento frio para caraças. Eita Cacimbo de cortar os ossos e empata-poesia...
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