quarta-feira, 30 de abril de 2014

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O meu manifesto de 'elinguista'

As escadas vermelhas, o calor da noite, o gin na mão, o letreiro azul do BPC em frente, respirar fundo (quem vive no centro de Luanda sabe o quanto importante e raro é um sítio onde se possa, descontraidamente, respirar fundo). Foi no Elinga que, pela primeira vez, Junho de 2009, senti que podia ‘viver’ em Luanda. O Elinga e as suas tribos, ambiente mágico, música boa, pessoal misturado entre locais e estrangeiros. Pelo Elinga cometemos loucuras (‘loucuras’, está claro, nos parâmetros de dois ‘pulas’ novos na cidade). Nos primeiros tempos, e ainda sem transporte ou boleia, era obrigatório ir e regressar mesmo que fosse a pé. Chegámos, sozinhos, a fazer a Baixa e subir a Missão até ao Kinaxixi a pé às três da manhã...Mas o Elinga era o nosso bálsamo numa nova cidade onde andávamos à procura de um lugar longe dos bares da ilha com os quais a identificação era difícil e, ali, encontrámos. Um lugar representa aquilo de que gostam e o que são os seus vários frequentadores ou é o próprio lugar que cria uma comunidade? Não sei dizer, mas no Elinga conheci algumas das pessoas mais fixes da Banda, fiz alguns amigos e muitos conhecidos. O Elinga é tão único que deu lugar a um verbo: «Como é, hoje vamos ‘elingar’?». 
Em cinco anos as circunstâncias (pessoais e da cidade) mudaram, a música conheceu noites menos boas, o espaço encheu demasiado, tive uma filha, passei a ir ao Elinga esporadicamente: uma exposição, uma peça de teatro, uma entrevista ali marcada. Mas era sempre ‘o Elinga’… Depois intensificaram-se os rumores de que iria ser demolido para dar lugar a um «parque de estacionamento», «não, vai ser um centro comercial», «achas? é para construir um prédio de milhões», boatos, especulações, os mujimbos em que Luanda é pródiga. Acho que ainda ninguém sabe ao certo para que é. Também se diz que no último andar, o tal do novo prédio vai ter um terraço já reservado para o novo espaço do bar e teatro do Elinga. Sabe-se lá… 
Há um mês voltei para entrevistar o rapper MCK e assistir a um debate com os Buraka Som Sistema sobre Kuduro, na semana passada voltei para entrevistar uma actriz portuguesa que está a dar formação a actores do bairro do Sambizanga, que ficaram sem teatro, desaparecido na vertigem das demolições. O Elinga é eclético e generoso, abraça a arte e a cultura nas mais diversas formas, é terreno fértil para criatividade. «Temos uma apresentação aqui marcada para dia 17 de Abril, mas pode não acontecer porque o Elinga pode já não existir», disse a Sandra Barata Belo durante os ensaios da peça «E se amanhã o medo», texto de Ondjaki. Na verdade, e se amanhã o Elinga já não estiver de pé?! Está certo que as condições não são as melhores, o espaço (físico) está em muito mau estado, as madeiras estão podres, os ratos vagueiam por ali, muitos artistas (como o enorme António Ole) já deixaram os seus ateliês e rumaram para outros locais, não serve os seus intentos mas demolir é a melhor opção? Sinceramente, não sei, não percebo nada de construção, mas arquitectas como a Ângela Mingas e a Paula Nascimento têm lutado para mudar mentalidades e chamado a atenção para se preservar o centro histórico. São jovens valores angolanos, são competentes, têm obra feita, não são mais ouvidas, porquê?! 
Entristece-me o que se passa em Angola com a mania de replicar o pior que se faz nos países ditos do primeiro mundo e com a obsessão em se ser moderno, civilizado, ocidental, seja lá isso o que for. 
A Europa está decadente. O 'modelo' europeu e ocidental, de uma forma geral, falhou! Portugal, infelizmente, não é exemplo para quase nada (tirando o sistema nacional de saúde e o ensino público que, e é capaz de estar por dias, ainda são das poucas coisas dignas de orgulho e admiração) e, mesmo assim, por cá, insiste-se em destruir património arquitectónico e “afectivo” (como escrevia a Marta). E pôr por cima betão, construir edifícios modernos, espelhados, iguais a tantos outros, sem carisma, sem chama, sem história, como se fez hemisfério norte fora, eliminando aquilo que havia, passando com bulldozers por cima do Passado que, para o bem e para o mal, é o que vai deixando escrito a história dos povos. A demolição a qualquer momento do Elinga representa para mim algo maior na actualidade angolana. 
Esta obsessão por imitar e importar o que é feito 'lá fora' quando o que é feito 'lá fora' foi tão absurdamente mal feito, é algo que não entendo. Porque não pode Angola, tão jovem, tão no início como país novo, tão candidata a ponta de lança no ‘jogo’ de África como o mundo, encontrar o seu próprio caminho e criar o seu modelo original, inspirar-se no que de bom já se fez por aí, aprender com o que de mal se fez, e 'inventar', livre de amarras, uma forma nova e única de ser Nação?! Angola é independente, sim, mas para quando a emancipação?!